O Dia em que o Vírus da DENGUE se tornou uma AMEAÇA GLOBAL

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Olá, Ciência!
Todos nós conhecemos o vírus ignorado que se tornou uma ameaça global. É o vírus da dengue, que fez ...
Video Transcript:
Nesse vídeo da nossa série sobre vírus você vai entender os reais motivos do porquê a Dengue nunca acaba no Brasil. Eu vou te contar o que a ciência descobriu sobre o porquê de termos epidemias de dengue ser humano, afinal, existem registros de epidemias que aconteceram há séculos desde a Indonésia, passando pela África e chegando nas Américas. Mas esses saltos do vírus da dengue que originalmente infectava macacos para o ser humano aconteceram tantas vezes na história que foram capazes de consolidar 4 tipos de vírus que hoje nos infectam com muita eficiência.
Sim, a Dengue não é causada só por um tipo, mas sim por 4 sorotipos muito diferentes. Saber disso é o primeiro passo pra você entender porque a dengue causa epidemias todo ano. Vamos olhar para os vírus da dengue de perto.
Dengue 1, Dengue 2, Dengue 3 e Dengue 4. Os 4 tipos de vírus da dengue são chamados sorotipos porque eles são capazes de despertar uma reação imunológica com anticorpos diferentes pra cada um deles no soro… ou basicamente… no sangue das pessoas infectadas. Os sorotipos não são diferentes ao ponto de serem vírus de espécies diferentes, mas também não são parecidos o suficiente pra serem só variantes um do outro.
Isso significa que você pode pegar dengue até 4 vezes na vida. E dependendo do sorotipo que te infectar, a doença pode ser diferente, mais grave, e o mais importante… os anticorpos contra um tipo não protegem bem contra o outro. Na verdade, se infectar com um sorotipo de vírus da dengue e depois de alguns meses com outro sorotipo pode até favorecer o vírus.
Quando os anticorpos produzidos em uma primeira infecção por um sorotipo encontram um sorotipo diferente, em uma nova infecção no seu corpo, eles se ligam no vírus da dengue, mas não conseguem neutralizar a partícula viral. E aqui que vem a jogada de mestre. Células do sistema imune chamadas monócitos estão sempre vasculhando o corpo em busca de anticorpos ligados em partículas estranhas.
Mas hoje, elas não vão comer o invasor. Hoje, são os monócitos que são o jantar. O vírus da dengue da segunda infecção pega carona nos anticorpos e infecta os monócitos.
Essa carona amplifica a infecção, aumenta a replicação viral e a inflamação, levando a um quadro conhecido como dengue hemorrágica. É desse jeito que a evolução favoreceu a existência de 4 sorotipos de dengue. Após séculos de saltos de macacos para nós, os sorotipos se tornaram uma máquina de driblar a imunidade para produzir novos vírus.
E como a nossa imunidade não é boa contra um sorotipo diferente, basta que haja um novo sorotipo circulando na sua cidade aí pra uma nova epidemia começar, todos os anos. Mas fato é que o vírus da dengue não teria conseguido todo esse sucesso na história sem um parceiro perfeito. Um vetor de transmissão: o mosquito Aedes.
E essa parceria de sucesso também está por trás das epidemias de dengue todo ano. Existem várias espécies de Aedes, mas os mais relevantes pra nós são o asiático Aedes albopictus e o seu primo africano, o Aedes aegypti. Nenhum desses deveria existir nas Américas, mas eles chegaram aqui… de barco.
Por volta de 1500, na época das grandes navegações e depois com o tráfico de escravos, porões das embarcações ancoradas na África e Ásia foram alvo de uma invasão. Pequenas criaturas, fêmeas de mosquitos Aedes, usando sensores no corpo que só a evolução foi capaz de desenvolver, identificaram de longe a umidade, o cheiro e a cor escura de possíveis ninhos para seus ovos. O que elas buscavam era apenas um local escuro, com água parada, capaz de sustentar as mais de 200 larvas filhas que iriam eclodir dali uma semana.
Junto com elas, chegou o vírus da dengue. Estudos mostram que uma pequena parcela das fêmeas infectadas pode transmitir o vírus para os ovos, gerando larvas e mosquitos adultos que já nascem infectados. Além disso, navegantes infectados ajudaram o vírus a se espalhar pelo mundo e sobreviver à viagem pelos oceanos.
Até hoje as fêmeas dos mosquitos Aedes continuam com esse mesmo comportamento, sempre voando em busca de água parada. O Aedes albopictus se adaptou para o meio silvestre e ainda é o principal vetor da dengue na Ásia. Enquanto que nas Américas e na África, o mosquito Aedes aegypti se adaptou para viver e transmitir em regiões urbanas.
E tem sido cada vez mais difícil controlar esses mosquitos. A cada novo ano, mais populações de mosquitos já nascem com resistência aos inseticidas, obrigando a ciência a desenvolver novas substâncias. E já é consenso, pessoal, que o mosquito está atingindo áreas que nunca havia atingido antes.
Ele está conseguindo chegar mais pro norte, o que ajuda a explicar casos de dengue na Flórida e na Europa e mais pro Sul, onde já é encontrado em cidades da Região Sul e da Argentina, consideradas livres do mosquito poucos anos atrás. As explicações são as mais variadas, mas o aumento da temperatura global parece expandir a faixa de território quente na qual esse mosquito consegue sobreviver. Fato é que com o avanço desses mosquitos pelas cidades do mundo, avançou também o vírus da dengue que estabeleceu uma parceria íntima com os Aedes.
Ele encontrou nos mosquitos o parceiro perfeito para chegar até nós. Digo a parceira perfeita. Os machos de Aedes, que têm esse penacho nas antenas fácil de ver a olho nu, são inofensivos pra nós.
Eles se alimentam de seiva e néctar de plantas. Já a fêmea precisa de outro alimento, além dos tradicionais: o sangue, que é essencial para amadurecer os ovos. É por isso que só as fêmeas picam.
E pra completar o seu ciclo, depois de acasalar, ela sai em busca de algum animal de sangue quente pra picar. E se elas picarem alguém infectado com o vírus da dengue, o ciclo recomeça. O vírus da dengue é extremamente adaptado ao organismo do mosquito.
Ele cai no intestino junto com o sangue, infecta as células do mosquito e após alguns dias migra pras glândulas que produzem saliva para então ser transmitido adiante. Mas essa relação entre vírus e mosquito vai muito além. Pesquisas muito recentes mostram que na presença do vírus da dengue, o comportamento do mosquito muda!
A fêmea fica mais ativa e mais sensível ao cheiro nos dias que sucedem a infecção pelo vírus, o que pode estar relacionado a uma maior facilidade em transmitir o vírus para um novo hospedeiro. Olha só galera! Toda essa parceria vem tendo sucesso ano após ano e o vírus da dengue já é uma ameaça global.
Só nos últimos cinco anos no Brasil, 481 municípios registraram transmissão da dengue pela primeira vez, principalmente na região Sul, o que é preocupante, já que essa população praticamente não tem quase nenhuma imunidade contra nenhum sorotipo. Eles nunca conviveram com epidemias de dengue. As epidemias podem ser mais fortes.
Europa e Estados Unidos que raramente têm a dengue na lista de doenças infecciosas mais relevantes, já têm que se preocupar com surtos. E na Ásia, especialmente na Indonésia, os casos estão recorde atrás de recorde. Mas toda essa história não explica porque o vírus da dengue vive sumindo e aparecendo do nada.
Porque em 2017 e 2018 não tivemos epidemia, mas o vírus voltou forte em 2019? Porque a dengue sumiu na pandemia e voltou agora em 2022? O que pesquisadores brasileiros descobriram foi surpreendente e vai fazer você clicar no gostei se chegou até aqui.
Enquanto o mosquito prosperava sem a atenção das autoridades de saúde, o vírus da dengue circulava silenciosamente. Parecia até que mosquito e vírus planejavam um retorno triunfal. [O RETORNO DA DENGUE] Vou simplificar pra vocês.
Nós temos epidemia de dengue todo ano porque não investimos bem em prevenção. E não é só porque deixamos água parada no quintal. O buraco é muito mais embaixo.
Quando os casos diminuem, há uma tendência das autoridades de saúde de darem menos importância pra aquela doença. Na história, temos o exemplo da poliomielite e do sarampo, que desapareceram e correm o risco de voltar, no caso do sarampo já voltou né, por causa da queda da vacinação. No caso da dengue, quando os casos diminuem, com o fim da temporada de chuvas e a redução da população de mosquitos, as autoridades passam a prestar atenção em outras doenças.
Enquanto isso, o mosquito continua se reproduzindo, se preparando pra atacar no próximo verão. E o que a pesquisa do Anderson Brito, virologista que já veio aqui no canal, mostrou é que além do mosquito, o vírus da dengue também continua circulando de forma silenciosa, nos anos sem epidemia, o que nós chamamos de transmissão críptica, abaixo do radar. Por incrível que pareça, a dengue é uma doença em que mais de 70% dos casos são assintomáticos.
A pessoa se infecta, é picada, passa o vírus adiante e nem percebe. O que parece ter acontecido na grande epidemia de 2019, que inclusive eu acompanhei com as equipes de endemias que eu trabalhava na época, é que o sorotipo do vírus Dengue 2, ficou circulando de forma silenciosa por anos. Quando ele encontrou as condições perfeitas, que foram (1) um aumento da população do mosquito, (2) uma falta de controle dos casos por causa de um desabastecimento histórico de inseticida e (3) uma queda na imunidade da população contra o sorotipo 2, porque esse vírus não causava epidemias há anos, nessas condições, a dengue explodiu.
Por que não fazemos o controle quando os casos e mosquitos estão em baixa, pra suprimir essa transmissão silenciosa antes do problema explodir? Será que essas mesmas condições estão acontecendo agora em 2022? Não exatamente as mesmas, mas podemos aprender com o passado.
A epidemia desse ano é causada principalmente pelo sorotipo 1, que a população já encontrou mais vezes e tem mais imunidade contra. Mas com a pandemia, o controle do mosquito certamente ficou prejudicado porque as equipes de endemias não podiam entrar nas casas como antes. Provavelmente temos mais mosquitos voando por aí.
As pessoas voltaram a circular e com isso, elas carregam o vírus pela cidade e entre cidades, muito além da distância que um mosquito é capaz de voar. Ou seja, temos mais oportunidades de transmissão. Somado a isso, temos o avanço do mosquito por regiões em que ele nunca causou epidemias, um sinal de que pessoas com baixa imunidade contra dengue estão suscetíveis.
Será que sou só eu que penso que tudo isso colabora para uma nova mega epidemia de dengue? Me conta aí embaixo como tá a situação na sua cidade. Será que tem jeito de resolver isso a tempo?
[TRANSIÇÃO] Uma vacina pra dengue está em desenvolvimento em fase 3 pelo Butantã, mas a complexidade do vírus da dengue deve atrasar a aprovação, como eu explico nesse vídeo aqui. Então, o que realmente nos resta, pessoal, é investir em prevenção, seja você um cidadão comum, não deixando água parada, usando repelente se estiver em áreas de risco ou desconhecidas e procurando um médico caso tenha sintomas de dengue. E se você puder, cobre do poder público ações também quando os casos estão em baixa, não só quando já estamos em epidemia.
Eles adoram fazer controle com fumacê quando os casos já explodiram, mas a gente vê pouco trabalho de controle de larvas sendo bem feito e orientação pra população, não é? Chegou a hora de nós vencermos essa parceria de séculos entre vírus da dengue e mosquito. Agora me conta, que outro vírus você quer que apareça aqui nessa série?
Enquanto isso, se liga nessa outra parceria de sucesso que pode ser feita com a sua cama, como eu explico nesse vídeo aqui e mostro como o seu sono pode melhorar a sua produtividade e a sua saúde. Ou se tiver interessado em outro assunto, assiste esse vídeo que o YouTube recomendou. Um grande abraço, não deixe água parada acumular e eu te vejo no próximo vídeo.
Tchau.
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